Hoje apeteceu-me rir à gargalhada, a bandeiras despregadas. Rir e mais rir e continuar a rir sempre que me lembro.
A gargalhada nem é um raciocínio, nem uma ideia, nem um sentimento, nem uma crítica: nem é o desdém, nem é a indignação; nem julga, nem repele, nem pensa; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma! E no entanto é o único inventário do mundo político em Portugal.
Um governo decreta? Gargalhada.
Um governo decreta? Gargalhada.
Fala? Gargalhada.
Reprime? Gargalhada.
Cai? Gargalhada.
E sempre a política, aqui, ou pensando, ou criando, ou liberal ou opressiva, terá em redor dela, diante dela, sobre ela, envolvendo-a, como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, cruel, implacável – a gargalhada!
Eça de Queiroz




