sábado, 28 de março de 2009

Questões de Justiça



«e, correndo os pleitos, por não se poderem evitar de todo, venham a rabulice, a trapaça, a apelação, a praxe, os ambages, para que vença tarde quem por justa justiça deveria vencer cedo, para que tarde perca quem deveria perder logo».
In Memorial do Convento, José Saramago

Uma das críticas que amiúde se ouvem acerca da justiça prende-se com a morosidade na aplicação da justiça aos casos concretos, a demora em encontrar e sancionar os culpados, a demora na resolução dos conflitos civis que lhe são presentes, a existência de demasiadas garantias de defesa. Ora se culpam os funcionários e juízes por desleixo na tramitação processual, ora os advogados por usarem e abusarem de expedientes dilatórios em vista do retardamento da decisão. Foi pensando nestes, (advogados e as partes que representam) e não em pretenso garantismo excessivo do ordenamento jurídico português, que Saramago escreveu a frase supra, paradoxalmente das mais transcritas por aqueles destinatários nos seus articulados e alegações de direito. Quem diria.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Cogitando o passado III

No meu tempo de escola, enquanto tive a disciplina de Inglês por três anos, o Francês acompanhou-me ao longo de todo o liceu. Fiquei sempre, por isso, um incondicional da Língua Francesa. Foi sempre para mim o símbolo de uma língua romântica a companhar Paris e o povo de la liberté, fraternité et igualité. Recordo, dessa época, o manual que continha parte dos versos da canção popular francesa "Au clair de la lune", que tinhamos de decorar e trauteei ao longo dos anos, e será porventura a única que saberia hoje declamar. A recordação agora, surgiu por acaso, ao divagar pelo youtube, encontrei-a declamada de forma muito bonita, que aqui deixo, precedida dos versos:

Au clair de la lune,
Mon ami Pierrot,
Prête-moi ta plume
Pour écrire un mot.
Ma chandelle est morte,
Je n'ai plus de feu,
Ouvre-moi ta porte,
Pour l'amour de Dieu.
Au clair de la lune
Pierrot répondit :
Je n'ai pas de plume,
Je suis dans mon lit.
Va chez la voisine,
Je crois qu'elle y est,
Car dans sa cuisine
On bat le briquet.
http://www.youtube.com/watch?v=64Rij7vM5Jc

terça-feira, 24 de março de 2009

Para Reflectir... caso vos apeteça

"Um agricultor coleccionava cavalos e só lhe faltava uma determinada raça.
Um dia ele descobriu que o seu vizinho tinha esse determinado cavalo e atazanou-o até conseguir comprá-lo.

Um mês depois o cavalo adoeceu e ele chamou o veterinário: - Bem, o seu cavalo está com uma virose; é preciso tomar este medicamento durante 3 dias, no terceiro dia eu regressarei e, caso ele não esteja melhor, será necessário sacrificá-lo.

Alí perto, o porco escutava a conversa toda... No dia seguinte deram o medicamento ao cavalo e foram-se embora.
O porco aproximou-se do cavalo e disse: - Força, amigo! Levanta-te daí, senão serás sacrificado!!!

No segundo dia, deram-lhe o medicamento e foram-se embora.
O porco aproximou-se do cavalo e disse: - Vamos lá amigo, levanta-te senão vais morrer! Vamos lá, eu ajudo-te alevantar... Upa! Um, dois, três! No terceiro dia deram-lhe o medicamento e o veterinário disse: - Infelizmente, vamos ter que sacrificá-lo amanhã, pois a virose pode contaminar os outros cavalos.

Quando se foram embora, o porco aproximou-se do cavalo e disse: - É agora ou nunca, levanta-te depressa! Coragem! Upa! Upa! Isso, devagar! Óptimo, vamos, um, dois, três, agora mais depressa, vá... Fantástico! Corre, corre mais! Upa! Upa!Upa!!! Tu venceste, Campeão!!!
Então, de repente o dono chegou, viu o cavalo a correr no campo e gritou:
- Milagre!!! O cavalo melhorou! Isto merece uma festa... para comemorar, vamos matar o porco!!!

Reflexão: Isto acontece com frequência no ambiente de trabalho e na vida também. Dificilmente se percebe quem tem o mérito pelo sucesso. Muitas das vezes aquele é atribuído erradamente."

Se algum dia alguém te disser que o teu trabalho não é de um profissional, lembra-te:

"Amadores construíram a Arca de Noé e profissionais construiram o Titanic".

"Procura ser uma pessoa de valor, em vez de uma pessoa de sucesso".

Via Ana Sofia, Amiga dos momentos difíceis.

sábado, 21 de março de 2009

As solicitações actuais e a demissão do convívio


Não sei se o texto infra se passou ou não na realidade, pois tive conhecimento dele através de um fórum em que participo, mas pode bem sê-lo, pois é elucidativo de realidades quotidianas.

Uma professora pediu aos alunos que fizessem uma redacção na qual fizessem um pedido a Deus.
À noite, em casa, quando corrigia as redacções, a professora leu uma que a deixou muito emocionada e transtornada. O marido que estava a ver televisão, ouvindo-a a soluçar, perguntou-lhe o que tinha acontecido. Ela disse-lhe:

- Lê isto. Era a redacção de um aluno.

“Senhor, esta noite peço-te algo especial: transforma-me na televisão. Quero ocupar o lugar dela. Viver como vive a TV da minha casa. Ter um lugar especial para mim, e reunir a minha família à volta...quero que me ouçam e me levem a sério...quero alguma atenção. Quero receber o mesmo cuidado especial que a TV recebe quando não funciona. E ter a companhia do meu pai quando ele chega a casa, mesmo quando está cansado. E que a minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar. Quero que os meus irmãos brinquem comigo em vez de estarem ao computador. Quero sentir que a minha família deixe tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo. E, por fim, faz com que eu possa diverti-los a todos. Senhor, não te peço muito...Só quero viver o que vive qualquer televisão e qualquer computador.”

Naquele momento, o marido da professora disse:
- Meu Deus, coitado desse miúdo! Que pais'! E ela olhou-o e respondeu:
- Essa redacção é do nosso filho.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Julgamento triplo

Aflição e angústia sentimentos do ser humano

A notícia correu célere em toda a comunicação social, tinha acabado por morrer uma criança que havia ficado esquecida dentro de uma viatura. Ao sol, a bebé tinha desidratado e falecido.
Este acontecimento deve fazer-nos interrogar sobre que sociedade é esta que nos escraviza e domina ao ponto de nos fazer subverter desta maneira prioridades absolutas. Que sociedade é esta que tem colocado, por inúmeras vezes, o emprego e a carreira profissional à frente de tantas outras coisas de ordem social, pessoal e até íntima. Tantas vezes ouvimos figuras públicas proclamar, em alto e bom som, e com toda a naturalidade, que não podiam, naquela altura casar, ter filhos ou dar a assistência que o pai ou a mãe reclamavam, pois a carreira exigia-lhe toda a entrega e consumia-lhe todo o seu esforço e tempo.

Claro que no acidente sub judice nada nos leva a pensar que tenha sido algo parecido com aquela actuação e a errada ordenação de valores que tenha estado na sua origem. [Fala-se num primo afastado do senhor Alzheimer que por ali passando impôs o esquecimento, a homem ainda moço]. Terá sido.

Seja como for, o sofrimento do pai e da mãe merecem-nos a nossa compaixão, respeito e até solidariedade, pois muito deve ser o desgosto e atroz o tormento do pai que se sente culpado na morte do seu filho querido. Muitas vezes se terá arrependido de ter saído de casa nesse dia, de não ter parado no infantário, de não ter destinado mais tempo ao seu bebé, muitas vezes terá batido no peito suplicando perdão. Muitas irão ser as noites sem dormir atormentado por uma culpa que a sua consciência lhe não vai dar tréguas. Vai ser o seu grande e primeiro julgamento, o da sua própria consciência que lhe imporá pena bem pesada e lhe trará consequências para toda a sua vida individual e familiar. Interrogo-me como será, doravante, a relação com a mãe da criança, com a lembrança sempre constante e a pairar em todos os actos do casal. Lembrarem-se que tiveram um filho que morreu bebé, será motivo de sofrimento, mas recordar os contornos em que o foi, será de uma dimensão tal, que não o conseguimos adivinhar.

Àquele julgamento, soma-se o da praça e opinião pública, até ao da mais pequena tertúlia de vizinhos ou amigos. A condenação também aí já é certa e continuará a sê-lo, pois não há contenção verbal nas massas que se comportam, nestes casos ou de similitude próxima, como herdeiros sedentos da barbárie do circo romano, e os próprios jornalistas correram também a atirar a primeira pedra, sem prévia auscultação e reflexão sobre a caixa de Pandora que abriam.

Por último, à agonia, aflição e desgosto do pai e daquela família, somar-se-á, inelutavelmente, o da aplicação da justiça dos homens e, pelo que veio publicado nos jornais, o Ministério Público irá acusar o pai por homicídio por negligência, que no caso de grosseira, tem o seu limite em 5 anos de prisão.

Não é nem foi minha pretensão julgar, condenando ou absolvendo, mas deixar apenas algumas considerações de cariz humano, sendo certo que todas aquelas justiças se estão e vão cumprir, cada qual, no seu tempo próprio. Contudo, não posso deixar de dizer de forma vincada que reprovo veementemente o esquecimento e o que o poderá ter originado, mas com a mesma veemência, dizer que são muitos castigos para um homem e cada qual o mais gravoso. Por mim, perfilar-me-ia como Egas Moniz, penitenciando-me, se o castigo maior e profundo não estiver já a ser sofrido.

Continuam a lançar os dados.....