segunda-feira, 2 de março de 2009

Ai a matemática

"Num processo de execução e a requerimento do Executado, o Sr. Dr. Juiz deferiu o pedido de redução do valor da penhora do salário de 1/6 para 1/5.
Desconfio que se o Executado tivesse sido ainda mais simpático, o Sr. Dr. Juiz reduziria ainda mais, para 1/4 ou mesmo para 1/3..."
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O erro mora aonde, no advogado do executado, no sr. Juiz, em lado algum.

domingo, 1 de março de 2009


“Ser individualista é um bem, é poder escolher, é ser autónomo, é ter liberdade. Outra coisa, é ser egoísta e autista.”

Autor: Filomena Mónica , Maria
Fonte Notícias Magazine (DN)

Ainda o egoísmo, agora em Pessoa


Também Fernando Pessoa escreveu sobre o egoísmo. Para ele, o egoísmo circunscreve-se à sua dedicação às artes da escrita que o retiram da convivência social e da preocupação com as coisas mais comuns e banais do dia a dia. Ainda assim, não se considera mais egoísta que os outros, sobretudo comparativamente com os seus pares nas artes e nas letras. Deixou- nos:
Egoísmo relativo

Por mim, o meu egoísmo é a superfície da minha dedicação. O meu espírito vive constantemente no estudo e no cuidado da Verdade, e no escrúpulo de deixar, quando eu despir a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva o progresso e o bem da Humanidade. Reconheço que o sentido intelectual que esse Serviço da Humanidade toma em mim, em virtude do meu temperamento, me afasta, muitas vezes, das pequenas manifestações que em geral revelam o espírito humanitário. Os actos de caridade, a dedicação por assim dizer quotidiana são cousas que raras vezes aparecem em mim, embora nada haja em mim que represente a negação delas.
Em todo o caso, reconheço, em justiça para comigo próprio, que não sou mais egoísta que a maioria dos indivíduos, e muito menos o sou que a maioria dos meus colegas nas artes e nas letras. Pareço egoísta àqueles que, por um egoísmo absorvente, exigem a dedicação dos outros como um tributo.
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Fernando Pessoa, in 'Notas Autobiográficas e de Autognose'

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Homem - Um Ser Egoísta


Na senda do que antes dissemos, o excerto seguinte, retirado de A arte de insultar, é bem elucidativo do pensamento de Schopenhauer sobre o egoísmo. Pela nossa parte, queremos muito não crer na generalização, enfim, fica a transcrição:

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O motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, é o egoísmo, ou seja, o impulso à existência e ao bem-estar. [...] Na verdade, tanto nos animais quanto nos seres humanos, o egoísmo chega a ser idêntico, pois em ambos une-se perfeitamente ao seu âmago e à sua essência.
Desse modo, todas as acções dos homens e dos animais surgem, em regra, do egoísmo, e a ele também se atribui sempre a tentativa de explicar uma determinada acção. Por natureza, o egoísmo é ilimitado: o homem quer conservar a sua existência utilizando qualquer meio ao seu alcance, quer ficar totalmente livre das dores que também incluem a falta e a privação, quer a maior quantidade possível de bem-estar e todo o prazer de que for capaz, e chega até mesmo a tentar desenvolver em si mesmo, quando possível, novas capacidades de deleite. Tudo o que se opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu ódio: ele tentará aniquilá-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo; mas, como isso é impossível, quer, pelo menos, dominar tudo: 'Tudo para mim e nada para os outros' é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo.

Arthur Schopenhauer, in 'A Arte de Insultar'

O que qualifica o ser humano! Relativismo do egoísmo

Conheci hoje, pela primeira vez, o blog de um senhor padre bem conhecido em Lamego, Drº João António, no endereço, padrejoaoantonio.blogs.sapo.pt. A última entrada era intitulada " EGOÍSMO ESCURECE A RAZÃO" , no qual dá conta que o Papa Bento XVI "está a preparar uma encíclica sobre a crise económica e os problemas sociais". Trata-se de blog bem elaborado, transpirando devoção e entrega, muito interessante e actual, que concilia a opinião estudada com a comunicação dos factos mais pertinentes. Recomendo a consulta.
Aquele título, "O egoísmo escurece a razão", teve o condão de me fazer lembrar uma outra referência muito oportuna que a amiga Cristina aqui deixou, em comentário, a um registo ligeiro sob título "A vida é simples, nós é que a complicamos" e a referência à filosofia de Schopenhauer, conhecido como o filósofo do pessimismo e a sua teoria baseada no irracionalismo sistemático. Com a devida vénia, dizia a Cristina:
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Eu penso que o riso acabou – porque a humanidade entristeceu. E entristeceu – por causa da sua imensa civilização. (...) Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. (...) O Infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio – O Grande Civilizado.”Eça de Queiroz, “A Decadência do riso”, in Notas Contemporâneas, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, 2000, pp.165-166.
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Em "A Cidade e As Serras", Jacinto, personagem que desde o nascimento tem todas as condições para ser feliz, alimenta-se de leituras pessimistas, como podemos observar desde o início do conto “já se vinha repastando de Schopenhauer, do «Ecclesiastes», de outros pessimistas menores, e três, quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo cavo e lento”, afastando-se cada vez mais da natureza e caminhando progressivamente para a negatividade e tédio da vida.
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Vamos então lembrar mais um pouco...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Cogitando o Passado



Júlio Dinis


Hoje apeteceu-me relembrar a minha juventude e as minhas leituras que então fiz. Houve muitos autores que marcaram essa minha época e, porventura, todo o meu percurso nesta vida, através da marca indelével que deixaram na minha formação e naquilo que eu sou.
Um deles, talvez dos mais importantes foi JÚLIO DINIS, ou melhor, Joaquim Guilherme Gomes Coelho, seu verdadeiro nome. Teve outros pseudónimos, mas nenhum o celebrizou como o de Júlio Dinis, e foi este que eu li e que dessa forma travou conhecimento comigo. Sei que da sua obra fazem parte, Poesias, Inéditos e Esparsos, Cartas e Teatro, mas apenas li os seus quatro romances: As Pupilas do senhor Reitor, Uma Família Inglesa, A Morgadinha dos Canaviais e Os Fidalgos da Casa Mourisca. Todos e cada um memoráveis monumentos literários. Comecemos hoje, pelo primeiro.


AS PUPILAS DO SR. REITOR

Sinopse

Num cenário povoado pelo moralismo, desenrola-se um drama amoroso. Os filhos do rico agricultor José das Dornas, Pedro e Daniel, envolvem-se em disputas relativas a duas órfãs, Clara e Margarida, entregues ao sr. reitor da aldeia, tutor das duas jovens órfãs, a quem muito estimava, e lhes valeu como pai, conselheiro e professor. A Clara e a Margarida encaram a vida por forma diferente: a primeira, expansiva e alegre, por vezes estouvada, feliz de si própria e dos outros; a segunda, fechada e reservada.

Desde cedo Daniel, apaixona-se por Margarida, mas o pai depois de uma tentativa frustrada no seminário envia-o para estudar medicina. Anos depois, aquando do seu regresso à aldeia, Daniel já não se recorda da Margarida e acaba por se interessar por Clara, que é noiva do seu irmão Pedro, colocando em causa o bom nome da família e a harmonia familiar.
Um dia, quando o Pedro ia surpreender o irmão com a sua noiva, a Margarida apercebendo-se, avisou-os e tomou o lugar da irmã, colocando em causa a sua própria reputação e sujeitando-se ao vexame público.
A obra, termina com o Daniel, reconhecendo o acto abnegado da Margarida e recordando-se do amor que lhe devotava em criança, a retomar a sua reconquista. Acabando em romance.

São de salientar, ainda as personagens, igualmente marcantes na obra:
O Dr. João Semana: médico octogenário de ideias limitadas e ultrapassadas, simples e prestável.
O João da Esquina: comerciante atento a intrigas locais, representante do meio fechado e pequeno.
O Velho Mestre: velho filósofo que se instalara na vila para procurar paz na vida do campo e preparar-se para morrer. Servia de mestre a Margarida.

A vida é simples, nós é que a complicamos

Este é um registo diferente. Ele retrata a melhor filosofia de Schopenhauer, conhecido como o filósofo do pessimismo e a sua teoria baseada no irracionalismo sistemático. Com a actual crise económica, o pessimismo e a desmotivação que se começam a instalar nas pessoas e nos agentes económicos, são inibidores do bom funcionamento do mercado. Sendo, compreensivelmente, um tempo de muitas indefinições, torna-se necessário incutir confiança e optimismo. Não podemos mesmo é complicar. vejam o exemplo caricaturado em anedota.


Sherlock Holmes e Watson vão acampar.

Montam a tenda e, depois de uma boa refeição acabam por adormecer. Algumas horas depois, Holmes acorda e diz para o seu fiel amigo:
— Meu caro Watson, olhe para cima e diga-me o que vê.
Watson responde:
— Vejo milhares e milhares de estrelas.
Holmes, então, pergunta:
— E o que é que isso significa?
Watson pondera por um minuto, depois enumera:
1. Astronomicamente, significa que há milhares e milhares de galáxias e, potencialmente, biliões de planetas.
2. Astrologicamente, observo que Saturno está em Leão e teremos um dia de sorte.
3. Temporalmente, deduzo que são aproximadamente 03 horas e 15minutos pela altura em que se encontra a Estrela Polar.
4. Teologicamente, posso ver que Deus é todo-poderoso e somos pequenos e insignificantes.
5. Meteorologicamente, suspeito que iremos ter um lindo dia. Não lhe parece?
Holmes, estupefacto, diz:
Bolas, caro Watson, não vê simplesmente que nos roubaram a tenda?!!...

Moral da história: "A vida é simples, nós é que a complicamos".

Continuam a lançar os dados.....