sábado, 18 de agosto de 2012

Fazer uma rubrica e a ligação ao vermelho |                       



caneta.jpgFazer uma rubrica é firmar, fazer uma assinatura reduzida, abreviada ou ainda cifrada num documento. Usa-se também o verbo rubricar. Mas quer rubrica quer rubricar que hoje usamos na linguagem comum escondem uma interessante origem.

Rubrica vem do latim e era o termo que os romanos usavam para designar a cor vermelha. E daí rubro ou ainda ruborizar, ou seja, corar, ficar vermelho.

Mas, por que razão se chama "rubrica" a uma assinatura abreviada e qual é a ligação ao encarnado?

A explicação encontra-se no Direito. Antigamente era obrigatório que os títulos dos capítulos de Direito Civil e Direito Canónico fossem impressos a vermelho, ou seja, a rubrica e daí passaram a designar-se por rubricas os títulos de éditos e capítulos.

Mais tarde este imprimir a vermelho passou também para os livros religiosos e rubrica passou a sinónimo de capítulo.

Ora, segundo Orlando Neves, à semelhança da marcação de capítulo, a cor vermelha passou também a ser usada para assinalar as observações e notas, destacando-se assim das letras impressas a preto. Devido ao carácter abreviado dessas notas, rubrica passou a ter o significado que tem hoje de uma assinatura reduzida, abreviada.

[Do programa da Antena 1, Lugares Comuns, de Mafalda Lopes da Costa]

NOTA: Costuma ouvir-se dizer erradamente (até por responsáveis ministeriais) a palavra "Rubrica" como se tivesse um acento no "u", como se se escrevesse "Rúbrica". A sílaba tónica é "bri" e, por isso, deve pronunciar-se como se escreve, sem acento.
Para quem duvida de que a educação é pelo exemplo

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Recordando   L'aventure c'est l'aventure

 Como se fazia um engate ... selecto...  hoje só as meninas e os biquinis parecem iguais.      


L'aventure c'est l'aventure, é um filme de culto. Alguns bons malandros acabam por encontrar-se mercê de circunstâncias da vida. O objectivo é obter dinheiro com o menor esforço possível. Começam por descobrir que o rapto compensa quando obtêm um resgate pelo rapto de Johny Hallyday (com a sua conivência). Daí em diante as incursões pela política rendem milhões e os raptos sucedem-se. Nem o Papa se livra de ser raptado.

A cena é de treino e preparação para um engate selecto na praia com Lino Ventura, Lino Massaro, Jacques Brel, Charles Denner, Johnny Hallyday.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Vontade sem limites de aprender.

E quando se conhecem outras com quadros interactivos e aquecimento central...



Portugal, visto por Lobo Antunes  

Cáustico, como sempre, mas com humor. Ora leiam, que não se arrependem.
           

          
           " Nação valente e imortal

Agora, (...) passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento.
Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos.
Quem nos dá este solzinho, quem é?
E de graça.
Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos,
protestamos.
Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio.
Veja-se, por exemplo, o  senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho,
 coitados.
 Não há um único que não esteja na franja da miséria..
 Um único.
Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.
O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.
Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem.
Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão.
O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres.
O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros.
E nós, por pura maldade, teimamos em não entender.
Claro que há povos ainda piores do que o nosso:
os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal.
Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio.
Já o estou a ver
            - Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
            - Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
            - Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. Obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de
bem-aventuranças da Eternidade.
            As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas.
Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá?
Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz.
A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
            Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
            Loureiro para o Panteão já!
           Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça,  já!
            Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.
            Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
            Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara.
            Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito.
            Estátuas equestres para todos, veneração nacional.
Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no.

Voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair.
Quero  o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta.
Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.
Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.
Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais
Paraíso.
Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca.
Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.
Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito:
 onde  é que está a crise, então?
 Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadoresde sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso?
Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.

Para isso já há dinheiro, não é?
E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos.
            Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa.
Que queremos?
Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.

            Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?

           O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que
            pagar ao médico e à farmácia, ninharias.
           Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem?
Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever.
E,magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação,
            felizes.."
           
            (crónica satírica de António Lobo Antunes, in visão 2012)

Interessante explicação acerca de moral e ética